14 de jul de 2010

A minha solidariedade à professora Andréa Pimpão em resposta à Revista Veja

Caros amigos,

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Achei pertinente a resposta da professora Andréa Pimpão à Revista Veja relacionada à matéria da jornalista Roberta de Abreu Lima "Aula cronometrada". Abaixo está uma cópia desta resposta, mas antes de tudo, eu quis iniciar esta exposição com dois comentários: um que me chegou por e-mail anexo a esta carta e o outro que eu mesma fiz (desabafei), por se tratar de um assunto que muito me interessa e de uma profissão a qual eu também exerci.

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Aos comentários:

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À professora Andréa Pimpão,
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Concordo em gênero, número e grau com todos os argumentos feitos pela minha colega de profissão, aliás, ex-profissão. Lecionei durante três anos em escolas públicas e foi a maior decepção de minha vida.
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QUANTO À MATÉRIA DIVULGADA PELA VEJA - (Meu ponto de vista)
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A questão de cronometrarem as aulas como já vem ocorrendo nos Estados Unidos, segundo a jornalista Roberta de Abreu Lima, é incoerente e incompativel com a realidade de nosso país, pois as condições em que nós professores ministramos as atividades dentro de sala de aula são as piores possíveis, tanto no aspecto físico, quanto no aspecto de capacitação do profissional. Se o sindicato em Pernambuco rotulou a prática de *"patrulhamento" e "repressão", o motivo é óbvio, pois como fiscalizar e exigir o bom desempenho desses professores se não há uma política de capacitação justa e igualitária, de um salário decente, de incentivo por parte das autoridades competentes? O que querem fazer é constranger o professor e jogar a culpa no corpo docente porque é mais fácil, mais cômodo. Se o professor peca por falta de conteúdo dentro de sala de aula, por assuntos irrelevantes e por falta de preparo, deve-se culpar também às instituições superiores de ensino que a cada dia se proliferam em cada esquina, sem ordenamentos e critérios.Tudo não passa de balela, falso discurso e hipocrisia pura.
Há muito já sabem do problema que a educação brasileira enfrenta dentro de sala de aula, a providência chama-se "INVESTIMENTO" e "VERGONHA NA CARA".
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*Revista Veja, 23/06/2010 - Edição 2170/pág. 122 (Caso queiram se inteirar sobre a matéria "Aula cronometrada" - clique no título dessa postagem).

Por outro lado, parabenizo o artigo de Gustavo Ioschpe, intitulado "*Aula de ética é em casa, e não na escola", pelo discernimento e argumentos expostos ali. Não que a escola se exima do desenvolvimento da ética, mas que a sua pregação não seja tão "ostensiva" por ela. O ensino da ética é uma "prerrogativa dos pais". *(Revista Veja, 26/06/2010 - Edição 2171/Ano 43/ nº26 - págs: 120 e 121).
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QUANTO À DISCIPLINA E FALTA DE EDUCAÇÃO DOS ALUNOS (Meu ponto de vista)
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Lembro-me de um dos episódios que me ocorrera à epoca em que eu ainda lecionava, de ter pedido a um aluno por várias vezes que fizesse o favor de assentar-se, pois eu estava tentando dar aula enquanto ele passeava pela sala azucrinando a vida de todos, no que ele me respondeu: -"Vai tomar "naquele lugar..."
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Tamanha foi a minha surpresa que naquele momento a minha única reação foi levá-lo à diretoria para que fosse tomada alguma providência. Surpresa maior ainda quando no dia seguinte a mãe deste aluno foi fazer uma reclamação a meu respeito questionando o porquê de eu ter colocado o seu filho para fora de sala e dizendo que eu não tinha didática para lidar com crianças (adolescentes de 15 e 16 anos) - bastante crescidinhos, não!? Ao que respondi: - "Minha Senhora, se eu não tiver didática, talvez também a Senhora não deva ter dado educação para o seu filho.
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Infindáveis foram as frustrações que vivi pela falta de respeito, perspectiva e abandono. Lembro-me de ficar até altas horas em frente do computador fazendo planos de aula, realizando atividades, perdendo noites de sono para levar material diversificado e de qualidade para aquelas "crianças" e, simplesmente, elas faziam dessas atividades, aviõezinhos dentro de sala. Quantas e quantas vezes eu tirei dinheiro do bolso para pagar xerox, pois a única máquina que havia na escola vivia constantemente estragada. Quantos e quantos cartuchos de minha impressora gastei para imprimir provas, exercícios, letras de músicas para se trabalhar em sala de aula... Não estou aqui fazendo questão do dinheiro que dispus, sentia gosto em fazer isso, pois sempre achei que valeria a pena todo o esforço e dedicação. Claro, tive alguns alunos ótimos, atenciosos, mas prejudicados pela maioria que não queriam aprender, que iam para a escola só com o intuito de atrapalhar. Somente quem está dentro de uma sala de aula sabe o quanto é dasafiante o dia-a-dia do professor, da angústia, da impotência que nós sentimos perante ao descaso das autoridades públicas, da falta de apoio da família, dos pais e da sociedade.
Luciana Tannus

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Outros comentários

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Professora Andréa
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Você está repleta de razões em tudo que escreveu. Parabéns pela coragem e por sua lição de cidadania.Acrescento em seu desabafo, apenas uma informação: DE CADA R$ 100,00 (cem reais) que saem dos orçamentos das três esferas da administração pública no Brasil, via Ministério da Educação, Secretarias Estaduais e Municipais, apenas R$ 42,00 (quarenta e dois reais) chegam ao seu destino (salas de aula), o restante vão para o ralo da corrupção e da concentração de riquezas nas mães de políticos com cargos eletivos, funcionários públicos e empresários corruptólogos de carteira assinada. Agem segundo eles legalmente...Infelizmente estão aí e vão continuar deitando e rolando e muitas vezes rolando até sem deitarem...
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Walter Domingos*

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A carta de Andréa Pimpão:
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Sou professora do Estado do Paraná e fiquei indignada com a reportagem da jornalista Roberta de Abreu Lima “Aula Cronometrada”. É com grande pesar que vejo quão distante estão seus argumentos sobre as causas do mau desempenho escolar com as VERDADEIRAS razões que geram este panorama desalentador".
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Não há necessidade de cronômetros, nem de especialistas para diagnosticar as falhas da educação. Há necessidade de todos os que pensam que: “os professores é que são incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital” entrem numa sala de aula e observem a realidade brasileira. Que alunos são esses “repletos de estímulos” que muitas vezes não têm o que comer em suas casas quanto mais inseridos na era digital? Em que país de famílias oriundas da pobreza trabalham tanto que não têm como acompanhar os filhos em suas atividades escolares, e pior em orientá-los para a vida? Isso sem falar nas famílias impregnadas pelas drogas e destruídas pela ignorância e violência, causas essas que infelizmente são trazidas para dentro da maioria das escolas brasileiras. Está na hora dos professores se rebelarem contra as acusações que lhes são impostas. Problemas da sociedade deverão ser resolvidos pela sociedade e não somente pela escola.
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Não gosto de comparar épocas, mas quando penso na minha infância, onde pai e mãe, tios e avós estavam presentes e onde era inadmissível faltar com o respeito aos mais velhos, quanto mais aos professores e não cumprir as obrigações fossem escolares ou simplesmente caseiras, faço comparações com os alunos de hoje “repletos de estímulos”. Estímulos de quê? De passar o dia na rua, não fazer as tarefas, ficar em frente ao computador, alguns até altas horas da noite, (quando o têm), brincando no Orkut, ou o que é ainda pior envolvidos nas drogas. Sem disciplina seguem perdidos na vida. Realmente, nada está bom. Porque o que essas crianças e jovens procuram é amor, atenção, orientação e ...disciplina.
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Rememorando, o que tínhamos nós, os mais velhos, há uns anos atrás de estímulos? Simplesmente: responsabilidade, esperança, alegria. Esperança que se estudássemos teríamos uma profissão, seríamos realizados na vida. Hoje os jovens constatam que se venderem drogas vão ganhar mais. Para quê o estudo? Por que numa época com tantos estímulos não vemos olhos brilhantes nos jovens? Quem, dos mais velhos, não lembra a emoção de somente brincar com os amigos, de ir aos piqueniques, subir em árvores? E, nas aulas, havia respeito, amor pela pátria.. Cantávamos o hino nacional diariamente, tínhamos aulas “chatas” só na lousa e sabíamos ler, escrever e fazer contas com fluência. Se não soubéssemos não iríamos para a 5ª. Série. Precisávamos passar pelo terrível, mas eficiente, exame de admissão. E tínhamos motivação para isso.
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Hoje, professores “incapazes” dão aulas na lousa, levam filmes, trabalham com tecnologia, trazem livros de literatura juvenil para leitura em sala-de-aula (o que às vezes resulta em uma revolução), levam alunos à biblioteca e outros locais educativos (benza, Deus, só os mais corajosos!) e, algumas escolas públicas onde a renda dos pais comporta, até a passeios interessantes, planejados, minuciosamente, como ir ao Beto Carrero. E, mesmo, assim, a indisciplina está presente, nada está bom. Além disso, esses mesmos professores “incapazes” elaboram atividades escolares como provas, planejamentos, correções nos fins-de-semana, tudo sem remuneração.
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Todos os profissionais têm direito a um intervalo que não é cronometrado quando estão cansados. Professores têm 10 m .de intervalo, onde tem que se escolher entre ir ao banheiro ou tomar às pressas o cafezinho. Todos os profissionais têm direito ao vale alimentação, professor tem que se sujeitar a um lanchinho, pago do próprio bolso, mesmo que trabalhe 40 h.semanais. E a saúde? É a única profissão que conheço que embora apresente atestado médico tem que repor as aulas. Plano de saúde? Muito precário. Há de se pensar, então, que são bem remunerados... Mera ilusão! Por isso, cada vez vemos menos profissionais nessa área, só permanecem os que realmente gostam de ensinar, os que estão aposentando-se e estão perplexos com as mudanças havidas no ensino nos últimos tempos e os que aguardam uma chance de “cair fora”.Todos devem ter vocação para Madre Teresa de Calcutá, porque por mais que esforcem-se em ministrar boas aulas, ainda ouvem alunos chamá-los de “vaca”,”puta”, “gordos “, “velhos” entre outras coisas. Como isso é motivante e temos ainda que ter forças para motivar. Mas, ainda não é tão grave. Temos notícias, dia-a-dia, até de agressões a professores por alunos. Futuramente, esses mesmos alunos, talvez agridam seus pais e familiares.
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Lembro de um artigo lido, na revista Veja, de Cláudio de Moura Castro, que dizia que um país sucumbe quando o grau de incivilidade de seus cidadãos ultrapassa um certo limite. E acho que esse grau já ultrapassou. Chega de passar alunos que não merecem. Assim, nunca vão saber porque devem estudar e comportar-se na sala de aula; se passam sem estudar mesmo, diante de tantas chances, e com indisciplina... E isso é um crime! Vão passando série após série, e não sabem escrever nem fazer contas simples. Depois a sociedade os exclui, porque não passa a mão na cabeça. Ela é cruel e eles já são adultos.

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Por que os alunos do Japão estudam? Por que há cronômetros? Os professores são mais capacitados? Talvez, mas o mais importante é porque há disciplina. E é isso que precisamos e não de cronômetros. Lembrando: o professor estadual só percorre sua íngreme carreira mediante cursos, capacitações que são realizadas, preferencialmente aos sábados. Portanto, a grande maioria dos professores está constantemente estudando e aprimorando-se.
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Em vez de cronômetros precisamos de carteiras escolares, livros, materiais, quadras-esportivas cobertas (um luxo para a grande maioria de nossas escolas), e de lousas, sim, em melhores condições e em maior quantidade. Existem muitos colégios nesse Brasil afora que nem cadeiras possuem para os alunos sentarem. E é essa a nossa realidade! E, precisamos, também, urgentemente de educação para que tudo que for fornecido ao aluno não seja destruído por ele mesmo.
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Em plena era digital, os professores ainda são obrigados a preencher os tais livros de chamada, à mão: sem erros, nem borrões (ô, coisa arcaica!), e ainda assim ouve-se falar em cronômetros. Francamente !!!
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Passou da hora de todos abrirem os olhos e fazerem algo para evitar uma calamidade no país, futuramente. Os professores não são culpados de uma sociedade incivilizada e de bandidismo, e finalmente, se os professores até agora não responderam a todas as acusações de serem despreparados e “incapazes” de prender a atenção do aluno com aulas motivadoras é porque não tiveram TEMPO. Responder a essa reportagem custou-me metade do meu domingo, e duas turmas sem as provas corrigidas.


2 comentários:

Anônimo disse...

olá pssoal!!
infelizmente, eu que tambem sou professora (por enquanto)tenho que concordar com as colegas... Estou na area a apenas 3 anos e só Deus sabe as decepções que já tive... todos os dia durmo pedindo a Deus para passar em outro concurso público pois infelizmente, a educação não nos traz mas alelegrias, são poucos os alunos que querem aprender e muitos os que querem atrapalhar!
gostaria de poder mudar essa terrivel realidade mas me sinto impotente, pois quem não tem mais estimulos, são... acreditem, os professores,,,
amarga luta a nossa mas vamos em frente sem desespero e acreditando que algum dia tudo vai melhorar.

Fernanda Paes (Maceio- Alagoas)

Marco Lisboa disse...

Fui professor de Física por 5 anos. E estudante do Colégio Estadual, na década de 60. A charge no final é perfeita. O Estadual era uma escola pública de elite. Se o aluno fosse mal numa prova, tinha que se explicar em casa e estudar mais para a outra. A única vez em que minha mãe pôs os pés no Colégio, foi para levar uma blusa de frio, porque eu estava resfriado! Contando, ninguém acredita.